O cultivo de feijão no Brasil é vital para a segurança alimentar, pois está presente nas refeições do dia-a-dia de praticamente todo o brasileiro. E devido a sua popularidade, é uma cultura amplamente plantada em várias regiões do país. Entretanto, a produção enfrenta desafios constantes devido à incidência de doenças que podem comprometer a qualidade e a quantidade do grão. 

São diversas as doenças que podem colocar em risco a produtividade da lavoura, cada uma com características e impactos específicos. Compreender os sintomas, as formas de disseminação e as melhores estratégias de controle dessas doenças é crucial para o sucesso do cultivo. 

Neste artigo, vamos explorar as principais doenças do feijão e as formas mais eficazes de combatê-las, visando a sanidade das plantas e a sustentabilidade da lavoura.

Por que controlar as doenças do feijão?

O controle das doenças do feijão é vital para manter a produtividade e a rentabilidade da cultura. Os patógenos que causam as doenças afetam diretamente o desenvolvimento das plantas, reduzindo a capacidade de fotossíntese, comprometendo o enchimento dos grãos e, em muitos casos, causando a morte prematura das plantas. 

Esses fatores resultam em perdas de produtividade que podem variar dependendo da intensidade do ataque e das condições da lavoura.

Impacto direto na produtividade

Quando as plantas de feijão são severamente infectadas, a produção de grãos de qualidade é reduzida, o que afeta o peso dos grãos, a uniformidade e o tamanho das vagens. Isso diminui o rendimento total da lavoura e, em casos extremos, pode inviabilizar a colheita. 

A baixa produtividade também compromete a competitividade do agricultor no mercado, que não consegue atingir a produção esperada para atender à demanda.

Redução da lucratividade

O aumento dos custos, somado à queda na produtividade, tem um efeito direto sobre a lucratividade do produtor. Menos grãos colhidos e gastos adicionais com práticas corretivas impactam de forma negativa a margem de lucro. Para produtores que dependem do feijão como principal fonte de renda, o controle inadequado das doenças pode comprometer drasticamente a viabilidade econômica da atividade agrícola.

Outro fator que deve ser considerado é o impacto da qualidade do grão no valor de mercado. Grãos de feijão manchados ou deformados, resultado de ataques de doenças, tendem a ser desvalorizados pelos compradores, afetando o preço de venda e, consequentemente, o lucro do agricultor. Portanto, o controle eficiente das doenças do feijoeiro é indispensável para alcançar uma produção de alta qualidade e competitiva no mercado.

Consequência das doenças nas safras seguintes

As doenças que afetam o feijoeiro não apenas causam perdas significativas na safra atual, mas também podem ter efeitos prejudiciais nas safras subsequentes, tornando o controle ainda mais essencial. Os patógenos podem persistir no solo, em restos culturais ou nas sementes, favorecendo a reinfecção das futuras plantações.

Alguns agentes patogênicos possuem estruturas de resistência que podem permanecer viáveis no solo por vários anos. Isso significa que, mesmo que as condições da safra seguinte sejam favoráveis, a presença desses organismos pode comprometer o desempenho das plantas, exigindo medidas mais intensas de manejo para prevenir novos surtos.

Assim, as doenças não controladas representam um problema contínuo, afetando diretamente o planejamento das safras futuras, a viabilidade econômica do cultivo e a saúde do solo, tornando extremamente necessário o conhecimento específico de cada doença para o planejamento de um controle efetivo.

Mosaico-dourado: uma das maiores ameaças ao feijão

O mosaico-dourado, causado pelo vírus BGMV (Bean Golden Mosaic Virus), é uma das doenças mais destrutivas para o feijão no Brasil, tendo sido relatada em diversas regiões produtoras.

O vírus é transmitido pela mosca-branca (Bemisia tabaci), um inseto vetor que se prolifera rapidamente em ambientes quentes e secos, condições frequentes nas principais regiões produtoras do país. Os sintomas do mosaico-dourado são facilmente reconhecíveis, principalmente nas folhas jovens, que apresentam manchas amareladas (cloróticas) em formato mosaico

Com o avanço da doença, essas áreas amareladas se expandem, prejudicando a fotossíntese e resultando em menor crescimento da planta, deformações nas vagens e grãos, encarquilhamento das folhas e superbrotamento, o que compromete significativamente a produção.

A contaminação da mosca-branca pelo vírus ocorre no momento em que o inseto se alimenta de uma planta doente. Ao adquirir o vírus, o inseto acaba disseminando o patógeno para as demais plantas sadias ao se alimentar novamente.

Crestamento bacteriano: perigo das bactérias Xanthomonas

O crestamento bacteriano é causado pelas bactérias Xanthomonas axonopodis pv. phaseoli e X. fuscans sus. fuscans, que afetam severamente a produtividade do feijão, principalmente em áreas em que há alta umidade e temperaturas elevadas

As bactérias podem ser disseminadas por sementes contaminadas, restos culturais e pela água da chuva ou irrigação, fazendo com que a doença se espalhe rapidamente em lavouras densamente plantadas.

Os primeiros sinais da doença surgem como pequenas lesões aquosas nas folhas, que gradualmente aumentam de tamanho, resultando em manchas marrons com bordas amarelas. Essas manchas podem coalescer, formando áreas necrosadas e podendo levar ao dessecamento das folhas. As vagens também podem ser afetadas, apresentando manchas semelhantes às encontradas nas folhas, além de deformidades.

A infecção afeta principalmente as folhas e as vagens, reduzindo a área foliar fotossinteticamente ativa e comprometendo o desenvolvimento dos grãos.

Mofo-branco: um desafio fúngico

O mofo-branco, causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, é uma das doenças mais difíceis de controlar no cultivo de feijão, uma vez que o fungo pode sobreviver no solo por vários anos na forma de escleródios (estruturas de resistência). A doença é favorecida por condições de alta umidade e temperaturas amenas, sendo especialmente comum em áreas com irrigação excessiva ou chuvas frequentes.

Os sintomas do mofo-branco começam com o aparecimento de lesões aquosas nas hastes, nas folhas e nas vagens, que logo se cobrem com um micélio branco e algodoado. O momento mais crítico é durante a fase de florescimento, pois as flores são os órgãos mais suscetíveis à contaminação. 

Com o avanço da infecção, a planta murcha e morre, devido à interrupção do fluxo de seiva. Em fases avançadas de contaminação, é possível observar a formação dos escleródios negros no interior das hastes e vagens.

O patógeno consegue se hospedar em diversas outras culturas como soja, algodão e diversas hortaliças, dificultando o manejo de rotação de culturas. Seus escleródios podem ser propagados por sementes ou maquinários agrícolas.

Murcha de Fusarium: um patógeno de solo

É causada pelo fungo de solo (Fusarium oxysporum f. sp. phaseoli), e sua ocorrência é favorecida por condições de temperatura amena, solo úmido e compactado. Essa doença pode surgir tanto na fase vegetativa quanto na reprodutiva do feijoeiro, causando murcha nas plantas, especialmente nas horas mais quentes do dia, amarelecimento das folhas e desfolhamento precoce.

Os sintomas, como folhas amarelas e murchas, indicam que o fungo está bloqueando o transporte de água e nutrientes para a parte aérea da planta, comprometendo seu desenvolvimento. Contudo, o amarelecimento das folhas pode ser confundido com outros problemas, como ataques de pragas, deficiências nutricionais, compactação do solo ou até mesmo danos por produtos químicos.

Dessa forma, é fundamental realizar monitoramentos regulares na lavoura para identificar corretamente a presença de pragas e doenças. Conhecer o histórico da área e observar como os sintomas estão distribuídos nas plantas ajuda a diagnosticar corretamente o problema.

No caso específico da murcha de Fusarium, os sintomas frequentemente surgem em reboleiras, onde plantas jovens apresentam crescimento reduzido, tanto na parte aérea quanto nas raízes. Em infecções severas, a doença pode levar à morte das plantas.

Outras importantes doenças

O feijão é suscetível a diversos outros patógenos que também devem ser observados com atenção por técnicos e produtores, como:

  • ferrugem (Uromyces appendiculatus);
  • podridão-radicular (Rhizoctonia solani);
  • podridão-radicular-seca (Fusarium solani);
  • mancha-angular (Pseudocercospora griseola);
  • antracnose (Colletotrichum lindemuthianum).

Para controlar esses importantes desafios, o produtor deve utilizar ferramentas eficazes e que atuem de diferentes formas, como no manejo integrado.

Manejo Integrado de Doenças (MID): uma estratégia eficiente no feijão

O MID é uma ferramenta amplamente recomendada para o controle eficiente das doenças no cultivo do feijão. Ao integrar diversas técnicas de manejo, o MID permite um controle mais preciso e sustentável, focando na saúde das plantas e no equilíbrio do ecossistema agrícola. A base desse manejo é a combinação de diferentes métodos de controle — cultural, biológico e químico —, e o monitoramento constante da lavoura desempenha um papel central nessa estratégia.

O MID oferece diversos benefícios para o produtor de feijão, indo além da simples contenção de doenças. Uma das principais vantagens é a promoção de uma lavoura mais equilibrada e resiliente, capaz de suportar desafios fitossanitários com menor risco de surtos severos. Além disso, o uso de várias estratégias de controle em conjunto permite melhor eficiência no manejo, minimizando danos às plantas e favorecendo a produtividade a longo prazo.

A aplicação de técnicas diversificadas também preserva o ecossistema agrícola, evitando que o solo se torne propenso à proliferação de patógenos e favorecendo a saúde geral da cultura. Ao integrar práticas culturais, biológicas e químicas, o produtor promove um sistema mais sustentável e eficiente, que se mantém produtivo ano após ano.

Monitoramento: a base do manejo integrado

O monitoramento constante é primordial no MID. Por meio de inspeções regulares na lavoura, os produtores conseguem identificar precocemente a presença de doenças, permitindo que intervenções sejam feitas rapidamente. Isso aumenta as chances de sucesso no controle e reduz os impactos sobre a produtividade.

Esse monitoramento pode ser feito por meio de observações visuais diretas, coleta de amostras de solo ou plantas e até o uso de tecnologias modernas de sensoriamento remoto, como drones e imagens de satélite, que permitem identificar áreas de estresse nas lavouras. 

Essas ferramentas auxiliam no diagnóstico precoce de problemas e na avaliação da eficácia das medidas de controle aplicadas, otimizando o processo de tomada de decisão.

Controle cultural

O controle cultural no MID inclui práticas que visam criar um ambiente desfavorável para o desenvolvimento de patógenos. No caso do feijão, algumas das técnicas mais eficazes são:

  • rotação de culturas: alternar o plantio de feijão com outras culturas não hospedeiras, como milho ou sorgo, ajuda a reduzir a população de patógenos no solo. Essa prática interrompe o ciclo de vida de muitos fungos e bactérias que dependem do feijoeiro para se multiplicar.
  • manejo adequado do solo: solos bem drenados e com boa aeração são menos propensos à proliferação de doenças fúngicas ou bacterianas.
  • escolha de cultivares tolerantes: o uso de variedades de feijão geneticamente mais tolerantes a determinadas doenças pode ser uma medida eficaz para reduzir a incidência de algumas enfermidades.

Essas práticas culturais são a primeira linha de defesa no manejo integrado, criando uma base sólida para a saúde da lavoura.

Controle biológico

O controle biológico utiliza organismos naturais, como inimigos naturais de patógenos, para manter a população de patógenos sob controle. O uso de agentes biológicos ainda está em fases de testes e pesquisas, mas tem se mostrado eficaz no combate a diversas doenças. Alguns exemplos de práticas biológicas incluem:

  • introdução de fungos antagonistas: algumas espécies de fungos são utilizados para combater patógenos no solo, competindo com eles por espaço e recursos. Esse antagonismo pode reduzir a presença de hifas, esporos e estruturas de resistência dos patógenos, limitando os surtos da doença.
  • inimigos naturais de vetores de doenças: o controle biológico pode incluir o uso de predadores naturais da mosca-branca, como vespas parasitoides, que ajudam a controlar a população desse inseto vetor do mosaico-dourado.

O controle biológico é uma ferramenta importante dentro do MID, pois promove o equilíbrio natural e diminui a pressão da doença sobre o cultivo, fortalecendo o ecossistema agrícola.

Controle químico 

O controle químico é uma importante ferramenta e deve ser usado de maneira estratégica e complementar aos outros métodos. Dentro do MID, o uso de defensivos químicos é planejado para ser eficiente, evitando o uso indiscriminado. As boas práticas no controle químico incluem:

  • rotação de moléculas: para evitar a resistência dos patógenos, é fundamental alternar os princípios ativos dos defensivos utilizados. A rotação de moléculas impede que o patógeno resistente a um produto específico seja selecionado rapidamente, mantendo a eficácia do tratamento.
  • tecnologia de aplicação: o uso de equipamentos de pulverização de alta precisão permite que os produtos sejam aplicados de forma homogênea e apenas nas áreas necessárias, minimizando o desperdício e otimizando o controle.
  • respeito aos intervalos de aplicação: manter os intervalos entre as aplicações de produtos químicos é crucial para a eficácia do controle e evitar a aplicação excessiva, que pode gerar custos desnecessários e reduzir a eficiência do manejo.
  • aplicação preventiva: a recomendação é que se priorize aplicação de produtos químicos de maneira preventiva, especialmente em áreas com histórico de alta incidência de doenças. Dessa forma, pode-se controlar melhor o estabelecimento e disseminação dos patógenos na lavoura, protegendo as plantas desde o início do ciclo.

Ao integrar o controle químico com práticas culturais e biológicas, o MID consegue maximizar a eficiência do uso dos insumos, evitando problemas de resistência e danos ocasionados pelos patógenos, enquanto mantém a lavoura produtiva e saudável.

A integração com diferentes métodos permite que o produtor responda de forma flexível às condições da lavoura, utilizando as ferramentas mais adequadas para cada situação, e possibilitando que a produção de feijão se mantenha viável e sustentável no longo prazo.

O sucesso do MID depende de uma visão ampliada do manejo agrícola, de maneira que cada método de controle contribui para a saúde geral do sistema. Dessa forma, o produtor consegue não só combater as doenças mais comuns na sua lavoura, mas também prevenir novos surtos e alcançar uma produção estável e de alta qualidade.